6.2)
É TÃO SIMPLES
A mulher,
ao dar à luz, está cercada de todos aqueles que lhe têm
amor. Sua intimidade e seu ritmo são respeitados. Seu companheiro
fica à vontade em ambiente que lhe é familiar. Seu bebê
passa docemente da cama na qual nasceu para seu próprio berço,
sem interrupção. Todas as pessoas presentes são convidados
e amigos.
O nascimento em casa é a continuidade com a vida da qual ele é
o início. É o gesto deliberado de pessoas preocupadas com
o bem-estar indissociável da criança que vai nascer e sua
mãe. Pessoas que escolheram ser responsáveis por esse ato.
O hospital e o sistema de saúde não apenas se apoderaram
do aspecto médico do nascimento como também esvaziaram o
sentido que esse acontecimento tem para cada pessoa. É esse sentido
que nós podemos reencontrar, celebrar, exprimir quando o parto é
realizado no próprio lar.
Rahima Badwin
diz do nascimento em casa: "A força motora da nova corrente de opiniões
que prioriza o parto em casa se apóia na tomada de consciência
de que, para estar vivendo plenamente, devemos participar plenamente em
tudo aquilo que fazemos. Estar em plena consciência de nossas emoções,
nosso senso de responsabilidade, nossa capacidade de tomar decisões
em dada ação de nossa vida e de forma mais particular num
acontecimento tão importante como o nascimento.
O parto em
casa tem muitas vantagens: liberdade de movimentos, segurança, privacidade
e condições excepcionais de acolhida do bebê. As razões
que recomendam o parto em casa são da ordem de três categorias:
segurança, reconhecimento de necessidades afetivas e autonomia.
Estas razões na realidade estão intimamente interligadas.
Passaremos a analisá-las separadamente.
SEGURANÇA: ultimamente têm se multiplicado os casos de troca
de crianças nos hospitais e maternidades. Outra ocorrência
muito séria, porém mais rara, é o rapto e desaparecimento
como o que ocorreu em Brasília com a criança chamada Pedrinho.
A violência
explode da sociedade para dentro da sala de parto. Ela está presente
no atendimento à parturiente. Sabe-se que a violência se manifesta
não só por atos de agressão física. Ela tem
seu início em palavras e frases. Quando a mulher reclama das dores
escuta invariavelmente uma frase: "Estava bom na hora de fazer, agora agüenta",
além de outras agressões verbais que, ao enumerá-las,
preencheria páginas e páginas deste livro.
A violência se reveste das máscaras mais variadas: indiferença,
frieza, cinismo, polidez disfarçada, palavras ditas com segundas
intenções mas que ferem a dignidade da mulher. Se fôssemos
ouvir as estórias das mulheres que, por causa das suas, condições
financeiras, deram à luz em serviços públicos não
acreditaríamos ser verdade tanta falta de sensibilidade dos membros
da equipe de saúde.
A cadeia
de violência se inicia quando ela, em trabalho de parto, é
recusada de um hospital após o outro. O
pior da violência é nos acostumarmos com ela. É não
ser capaz de distingui-la nos atos corriqueiros do dia-a-dia da sala de
parto.
Quando a mulher é admitida quase que "por favor" e não por
um direito absoluto de assistência fica passível de intervenções
desnecessárias que são objeto de questionamentos, por serem
inúteis e freqüentemente prejudiciais.
A cesárea sem uma indicação precisa constitui em si
uma violência contra a mãe e a criança.
Quando limitamos
em alguém a liberdade de se exprimir estamos praticando uma violência.
Devemos permitir à mãe, quando está em trabalho de
parto:
- liberdade de escolher a posição em que quer dar à
luz
- liberdade de emitir sons, isto é, falar, gritar, gemer, etc.
- liberdade de perguntar o que estão fazendo com ela, porque estão
fazendo, como está evoluindo o seu trabalho de parto
- liberdade de orientar o acontecimento segundo seus desejos e suas necessidades.
Em casa,
a mulher terá direito a cuidados personalizados e contínuos
por parte de um profissional que a conhece, que seguiu atentamente a gravidez
e que tem conhecimento dos problemas de saúde que poderão
ocorrer durante o parto e que ficará junto dando apoio durante todo
o decorrer do trabalho. Não será realizada nenhuma intervenção
salvo aquelas que, com o consentimento do casal, forem razoáveis
e necessárias.
RECONHECER AS NECESSIDADES AFETIVAS DA MÃE: constitui na atualidade
entre muitos fatores o mais negligenciado.
A atmosfera
afetuosa, íntima, cordial, é uma das condições
primordiais de sucesso, porque ela auxilia a liberação dos
hormônios que irão influir no trabalho de parto.
Nada é mais pessoal, individualizado do que acolher um bebê
em sua própria casa. Ninguém acolhe um bebê como seus
próprios pais. Desde seu primeiro minuto de vida ele é tratado
como o indivíduo verdadeiramente único que é por pessoas
que continuarão para sempre a se relacionar com ele.
Quando a mãe e o bebê estão pertinho um do outro ela
pode amamentar por quanto tempo quiser e ele só deixará seu
calor e aconchego (como o pintinho que fica embaixo das penas super macias
de sua mamãe galinha) para ser colocado em um berço onde
ela pode vê-lo, tocá-lo, tomá-lo em seus braços
no momento que desejar e achar oportuno.
A família reunida no seu próprio meio, vive junto uma experiência
maravilhosa que marca a existência e que tece ligações
entre seus membros para sempre.
A QUEM
PERTENCE O NASCIMENTO?
A AUTONOMIA
é uma aspiração do ser humano adulto. Os pais, mesmo
que às vezes inconscientemente, desejam se sentir os autores desse
acontecimento tão importante em suas vidas. As mulheres que dão
à luz em casa assumem essa responsabilidade e se recusam a ser pacientes
que se submetem a regras determinadas. As "jovens mamães" se transformam
em mulheres adultas e apoiadas por seus companheiros decidem dar à
luz no "ninho" por elas preparado para o seu filho.
Os pais que fazem a escolha de dar à luz em casa não são
contra a tecnologia mas acreditam que ela tem o seu lugar nos casos considerados
excepcionais. Estão prontos a procurar um hospital quando um problema
real se apresenta.
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