|
6)
O PARTO DOMICILIAR
Este
capítulo merece um segundo prólogo explicativo. Nasci de
parto natural em casa e, embora tenha insistido com minha mãe várias
vezes para que me contasse como tinha sido ele era em vão. Ela não
se lembrava de nada com exceção de um pequeno detalhe que
repetia todas as vezes que a pergunta sobre o parto era feita. Assim dizia
ela:
- Ah! Me lembro, seu pai entrou no quarto e exclamou:
Como ela é bonitinha!
Bom,
"quem ama o feio, bonito lhe parece", diz o velho ditado. Mas, o que posso
constatar pelas poucas fotografias da época, eu era bonita mesmo.
Mais tarde, muito mais tarde, ao defender minha tese
de doutorado e livre docência, tinha como prova didática uma
aula a ser ministrada aos professores da faculdade. O tema da minha tese,
Aleitamento Materno: Passei um filme sobre parto em casa que mostrava as
vantagens e o sucesso do aleitamento quando iniciado logo após o
parto nessa proximidade constante entre a mãe e seu bebê.
O parto domiciliar veio a mim e não eu a ele.
Quando
estudei na faculdade não se falava dele, ele era excluído,
proscrito, mal falado mesmo, jamais comentado.
Foi quando um dia eu estava na sala de parto do Amparo
Maternal e minha mestra M. Domineuc tinha acabado de assistir um parto.
Olhou para mim, seus olhos sempre brilhando como duas estrelas e sua face
banhada de paz e disse:
- Marília, este poderia ter nascido em casa
muito bem.
Terminando, não acredito em destino, nem acaso
mas em Deus, que vai iluminando o nosso caminho.
Fui para Montreal para fazer pós-doutorado
em atenção primária à saúde. Encontro
lá um grupo de parteiras leigas decididas e corajosas, e na companhia
delas, assisti partos em casa e conversei com as mães que faziam
essa opção.
Foi observando a prática e não ficando
apenas na teoria que tirei conclusões importantes a respeito da
humanização do parto.
Voltando
ao Brasil assisti alguns partos em casa, inclusive dos meus dois netinhos
nascidos em 1996 e 1998. Decidi vencer o medo e atravessar o mar agitado
no meu frágil barquinho. Porque o parto é considerado por
inúmeros autores como a travessia do mar e do oceano. O barco sai
do porto sem saber claramente o que vai encontrar pela frente.
Assim
venci meus medos. Não havia ninguém para dividir as responsabilidades.
Se algo acontecesse, como pode também, acontecer e acontece no hospital,
tudo recairia sobre mim. Felizmente nada aconteceu e as mães e as
crianças estão muito bem, obrigada. O parto em casa preenche
de maneira particular as necessidades psicológicas e sociais.
Permite
a participação e a presença ativa do pai ou companheiro,
não como mero espectador, mas como agente construtor do nascimento
do seu filho.
Dar à luz como desejamos, onde e com quem
queremos é um direito fundamental. Para as mulheres com saúde,
o parto em casa é uma opção entre outras e que pode
ser considerada por muitos "como uma loucura". Entretanto, a sociedade
foi condicionada a assim pensar de algumas décadas para cá.
Até os anos 50 a maioria das mulheres davam à luz em casa,
no aconchego do lar.
UMA
ESCOLHA
A
possibilidade de escolher o local do parto é extremamente importante.
A situação de monopólio da assistência ao parto
pelos hospitais e maternidades que ocorre na atualidade jamais beneficia
o consumidor, muito pelo contrário. Em um contexto onde existe possibilidade
de escolha, cada lugar deve oferecer condições de segurança
e de auxílio semelhante ao outro. Em países como o Canadá,
certas opções oferecidas em alguns hospitais maternidades
apareceram para concorrer ao conforto e à liberdade proporcionadas
pelo parto em casa.
O
verdadeiro sentido do nascimento foi se perdendo pouco a pouco nos meandros
das regras e condutas institucionais.
A liberdade que a casa proporciona ao casal durante
o trabalho de parto permite a ele reencontrar o verdadeiro sentido desse
acontecimento e realizá-lo da forma que mais lhe convém.
Mulheres sadias decidem dar à luz em suas
casas e casais ousam cuidar de seus filhinhos segundo seu instinto, afetuosamente,
acompanhados de profissionais "observadores" que deixam que os pais definam
suas necessidades e prioridades.
Um
número reduzido de médicos assistem partos em casa mas são
as parteiras em sua grande maioria que acompanham os casais nessa escolha.
As mulheres que decidem dar à luz em casa
são freqüentemente objeto de pressões injustas de efeitos
profundamente negativos. Muitas vezes são obrigadas a esconder o
fato de familiares e amigos. Sei mesmo do caso de uma parturiente que foi
ameaçada pelos vizinhos que chegaram ao absurdo de chamar a polícia.
O desaparecimento do parto em casa (como está
acontecendo em muitas regiões brasileiras) rompe uma grande cadeia
formada por mulheres que, no decorrer dos tempos, puseram seus filhos no
mundo em seu próprio lar, provando com esse fato que o parto é
um ato natural.
A
questão: - Por que dar à luz em casa? Deveria ser precedida
por uma pergunta não menos importante: - Por que dar à luz
no hospital?
Nenhum estudo demonstrou que dar à luz no
hospital contribuiu para melhorar a condição da mulher sadia.
Existem, sim, fatos que comprovam que a saúde da mãe e da
criança pode melhorar e muito com uma boa alimentação,
com a qualidade do saneamento básico (esgoto, água e instalações
sanitárias), com melhores condições de vida em geral,
com a descoberta de métodos contraceptivos isentos de efeitos secundários
e o aperfeiçoamento das leis de proteção à
mulher.
A
partir dos anos 50 um grande movimento de hospitalização
se expandiu em todas as áreas da saúde. Como a classe médica
acredita que qualquer parto oferece sempre uma margem de risco, o nascimento
não teve como escapar a essa nova tendência.
O controle da medicina sobre os nascimentos se apóia
sobre o desejo dos pais de fazer o melhor para seus filhos e sobre a ignorância
desses pais em relação ao fato em si (todo o processo da
gravidez, parto e puerpério). Essa ignorância é mantida
por aqueles que têm interesse em permanecer os "experts" na assistência
à mulher grávida, aos quais todos devem obedecer.
Essa
forma de controle que nunca aconteceu antes é possível porque
tem suas raízes no medo que é tão velho como a humanidade.
O medo do nascimento, semelhante ao medo eterno e universal da morte.
Os argumentos contra o parto em casa são os
mais variados. Um dos mais expressivos é o de que em casa a infecção
por micróbios patogênicos é muito maior, quando, na
realidade se sabe que um dos grandes riscos que o bebê corre nos
dias de hoje é o de contrair a infecção hospitalar.
As infecções por stafilococos jamais ocorreram nas casas,
enquanto são muito freqüentes nos hospitais, trazendo sérias
conseqüências para o bebê. Tomamos conhecimento através
dos jornais de episódios recentes nos quais quase uma centena de
recém-nascidos perderam a vida em virtude de epidemias nas maternidades.
Nem sempre as notícias são publicadas, e as mortes continuam
a ocorrer silenciosamente e sem alardes jornalísticos.
O
médico garante no hospital o parto perfeito e o bebê perfeito.
"... Não se preocupe, mãe, nós nos ocuparemos de tudo".
A idéia do nascimento no hospital, em um local onde a equipe de
saúde "se ocupa de tudo" pode dar a falsa impressão de que
o casal não tem também uma parte de responsabilidade no ato
do nascimento.
Essa idéia coloca o pai e a mãe do bebê em uma atitude
passiva, na qual a colaboração deles parece impossível
e muitas vezes indesejável. Essa filosofia teve como resultado a
multiplicação incontrolável de intervenções
inúteis e o desespero de muitos casais que, lesados, procuram os
responsáveis pelas imperfeições que foram obrigados
a aceitar e conviver, às vezes pelo resto da vida.
É
surpreendente que suspeitas sejam levantadas sobre os nascimentos que ocorrem
nas casas e não se faça o mesmo sobre o que está acontecendo
nos hospitais. Entretanto, riscos existem e são numerosos.
O primeiro contato do bebê com o nosso mundo
dentro do ambiente hospitalar se faz na maioria das vezes em meio a indiferença,
tensão e nervosismo. Pessoas que não mantêm laços
afetivos com a família e, portanto, estranhas, recebem o bebê,
o manipulam, levam de cá para lá, como se ele fosse uma "coisa",
um objeto, não um ser profundamente sensível e sujeito às
influências do meio.
Seus gritos parecem dizer: "Leve-me de volta para
os braços de minha mãe ou então para os braços
de alguém que tenha amor por mim".
Enquanto
o bebê grita e esperneia, mede-se a sua estatura, pesa-se, tira-se
as impressões plantares, aplica-se uma injeção no
músculo, aspira-se as mucosidades com fortes aparelhos elétricos
de sucção, tudo em nome de uma ciência, de uma tecnologia
jamais reavaliada.
Existe demasiada confiança na aparelhagem
especializada que não é capaz de avaliar e de tomar decisões.
O
primeiro aconchego do bebê com a mãe, o primeiro olhar para
os pais, o tempo de espera para o primeiro contato e conhecimento mútuo
não entra em cogitação. A pressa é a "senhora
absoluta" da situação. É preciso mandar a mãe
para a cama, limpar a sala e os instrumentos, terminar tudo rapidamente.
Os efeitos perversos da tecnologia são numerosos.
Uma intervenção não justificada desencadeia freqüentemente
muitas outras, cada uma com seus efeitos negativos e posteriormente perigosos
para a saúde da mãe e do seu bebê.
No
hospital, preciosas informações são perdidas, entre
as observações feitas pela enfermeira do dia, a da noite,
o estudante de medicina, o residente e o médico que quase sempre
chega no último momento. A fragmentação do trabalho,
os inevitáveis problemas de hierarquia, as relações
de trabalho entre os membros da equipe de saúde de variadas personalidades
atrapalham a comunicação sempre tão necessária
para que se chegue a um diagnóstico efetivo do que está ocorrendo
com a parturiente.
De fato o hospital é uma invenção
do século XX e já não é sem tempo que se faça
uma avaliação do seu desempenho individual e coletivo.
Quanto mais partos eu assisto, em casa ou no hospital,
mais eu me convenço que o lugar mais natural para dar à luz,
quando se está sadio, é no seu próprio lar.
|