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PARTO HUMANIZADO
por Marilia Largura

6) O PARTO DOMICILIAR

Este capítulo merece um segundo prólogo explicativo. Nasci de parto natural em casa e, embora tenha insistido com minha mãe várias vezes para que me contasse como tinha sido ele era em vão. Ela não se lembrava de nada com exceção de um pequeno detalhe que repetia todas as vezes que a pergunta sobre o parto era feita. Assim dizia ela:
- Ah! Me lembro, seu pai entrou no quarto e exclamou: Como ela é bonitinha!

Bom, "quem ama o feio, bonito lhe parece", diz o velho ditado. Mas, o que posso constatar pelas poucas fotografias da época, eu era bonita mesmo.

Mais tarde, muito mais tarde, ao defender minha tese de doutorado e livre docência, tinha como prova didática uma aula a ser ministrada aos professores da faculdade. O tema da minha tese, Aleitamento Materno: Passei um filme sobre parto em casa que mostrava as vantagens e o sucesso do aleitamento quando iniciado logo após o parto nessa proximidade constante entre a mãe e seu bebê.

O parto domiciliar veio a mim e não eu a ele. 

Quando estudei na faculdade não se falava dele, ele era excluído, proscrito, mal falado mesmo, jamais comentado.
Foi quando um dia eu estava na sala de parto do Amparo Maternal e minha mestra M. Domineuc tinha acabado de assistir um parto. Olhou para mim, seus olhos sempre brilhando como duas estrelas e sua face banhada de paz e disse:

- Marília, este poderia ter nascido em casa muito bem. 

Terminando, não acredito em destino, nem acaso mas em Deus, que vai iluminando o nosso caminho.


Fui para Montreal para fazer pós-doutorado em atenção primária à saúde. Encontro lá um grupo de parteiras leigas decididas e corajosas, e na companhia delas, assisti partos em casa e conversei com as mães que faziam essa opção. 
Foi observando a prática e não ficando apenas na teoria que tirei conclusões importantes a respeito da humanização do parto.

Voltando ao Brasil assisti alguns partos em casa, inclusive dos meus dois netinhos nascidos em 1996 e 1998. Decidi vencer o medo e atravessar o mar agitado no meu frágil barquinho. Porque o parto é considerado por inúmeros autores como a travessia do mar e do oceano. O barco sai do porto sem saber claramente o que vai encontrar pela frente. 

Assim venci meus medos. Não havia ninguém para dividir as responsabilidades. Se algo acontecesse, como pode também, acontecer e acontece no hospital, tudo recairia sobre mim. Felizmente nada aconteceu e as mães e as crianças estão muito bem, obrigada. O parto em casa preenche de maneira particular as necessidades psicológicas e sociais.

Permite a participação e a presença ativa do pai ou companheiro, não como mero espectador, mas como agente construtor do nascimento do seu filho.

Dar à luz como desejamos, onde e com quem queremos é um direito fundamental. Para as mulheres com saúde, o parto em casa é uma opção entre outras e que pode ser considerada por muitos "como uma loucura". Entretanto, a sociedade foi condicionada a assim pensar de algumas décadas para cá. Até os anos 50 a maioria das mulheres davam à luz em casa, no aconchego do lar. 

UMA ESCOLHA

A possibilidade de escolher o local do parto é extremamente importante. A situação de monopólio da assistência ao parto pelos hospitais e maternidades que ocorre na atualidade jamais beneficia o consumidor, muito pelo contrário. Em um contexto onde existe possibilidade de escolha, cada lugar deve oferecer condições de segurança e de auxílio semelhante ao outro. Em países como o Canadá, certas opções oferecidas em alguns hospitais maternidades apareceram para concorrer ao conforto e à liberdade proporcionadas pelo parto em casa.

O verdadeiro sentido do nascimento foi se perdendo pouco a pouco nos meandros das regras e condutas institucionais.
A liberdade que a casa proporciona ao casal durante o trabalho de parto permite a ele reencontrar o verdadeiro sentido desse acontecimento e realizá-lo da forma que mais lhe convém.

Mulheres sadias decidem dar à luz em suas casas e casais ousam cuidar de seus filhinhos segundo seu instinto, afetuosamente, acompanhados de profissionais "observadores" que deixam que os pais definam suas necessidades e prioridades.

Um número reduzido de médicos assistem partos em casa mas são as parteiras em sua grande maioria que acompanham os casais nessa escolha.
As mulheres que decidem dar à luz em casa são freqüentemente objeto de pressões injustas de efeitos profundamente negativos. Muitas vezes são obrigadas a esconder o fato de familiares e amigos. Sei mesmo do caso de uma parturiente que foi ameaçada pelos vizinhos que chegaram ao absurdo de chamar a polícia.

O desaparecimento do parto em casa (como está acontecendo em muitas regiões brasileiras) rompe uma grande cadeia formada por mulheres que, no decorrer dos tempos, puseram seus filhos no mundo em seu próprio lar, provando com esse fato que o parto é um ato natural.

A questão: - Por que dar à luz em casa? Deveria ser precedida por uma pergunta não menos importante: - Por que dar à luz no hospital?
Nenhum estudo demonstrou que dar à luz no hospital contribuiu para melhorar a condição da mulher sadia. Existem, sim, fatos que comprovam que a saúde da mãe e da criança pode melhorar e muito com uma boa alimentação, com a qualidade do saneamento básico (esgoto, água e instalações sanitárias), com melhores condições de vida em geral, com a descoberta de métodos contraceptivos isentos de efeitos secundários e o aperfeiçoamento das leis de proteção à mulher.

A partir dos anos 50 um grande movimento de hospitalização se expandiu em todas as áreas da saúde. Como a classe médica acredita que qualquer parto oferece sempre uma margem de risco, o nascimento não teve como escapar a essa nova tendência.

O controle da medicina sobre os nascimentos se apóia sobre o desejo dos pais de fazer o melhor para seus filhos e sobre a ignorância desses pais em relação ao fato em si (todo o processo da gravidez, parto e puerpério). Essa ignorância é mantida por aqueles que têm interesse em permanecer os "experts" na assistência à mulher grávida, aos quais todos devem obedecer.

Essa forma de controle que nunca aconteceu antes é possível porque tem suas raízes no medo que é tão velho como a humanidade. O medo do nascimento, semelhante ao medo eterno e universal da morte.
Os argumentos contra o parto em casa são os mais variados. Um dos mais expressivos é o de que em casa a infecção por micróbios patogênicos é muito maior, quando, na realidade se sabe que um dos grandes riscos que o bebê corre nos dias de hoje é o de contrair a infecção hospitalar.

As infecções por stafilococos jamais ocorreram nas casas, enquanto são muito freqüentes nos hospitais, trazendo sérias conseqüências para o bebê. Tomamos conhecimento através dos jornais de episódios recentes nos quais quase uma centena de recém-nascidos perderam a vida em virtude de epidemias nas maternidades. Nem sempre as notícias são publicadas, e as mortes continuam a ocorrer silenciosamente e sem alardes jornalísticos.

O médico garante no hospital o parto perfeito e o bebê perfeito. "... Não se preocupe, mãe, nós nos ocuparemos de tudo". A idéia do nascimento no hospital, em um local onde a equipe de saúde "se ocupa de tudo" pode dar a falsa impressão de que o casal não tem também uma parte de responsabilidade no ato do nascimento.

Essa idéia coloca o pai e a mãe do bebê em uma atitude passiva, na qual a colaboração deles parece impossível e muitas vezes indesejável. Essa filosofia teve como resultado a multiplicação incontrolável de intervenções inúteis e o desespero de muitos casais que, lesados, procuram os responsáveis pelas imperfeições que foram obrigados a aceitar e conviver, às vezes pelo resto da vida.

É surpreendente que suspeitas sejam levantadas sobre os nascimentos que ocorrem nas casas e não se faça o mesmo sobre o que está acontecendo nos hospitais. Entretanto, riscos existem e são numerosos.
O primeiro contato do bebê com o nosso mundo dentro do ambiente hospitalar se faz na maioria das vezes em meio a indiferença, tensão e nervosismo. Pessoas que não mantêm laços afetivos com a família e, portanto, estranhas, recebem o bebê, o manipulam, levam de cá para lá, como se ele fosse uma "coisa", um objeto, não um ser profundamente sensível e sujeito às influências do meio.

Seus gritos parecem dizer: "Leve-me de volta para os braços de minha mãe ou então para os braços de alguém que tenha amor por mim".

Enquanto o bebê grita e esperneia, mede-se a sua estatura, pesa-se, tira-se as impressões plantares, aplica-se uma injeção no músculo, aspira-se as mucosidades com fortes aparelhos elétricos de sucção, tudo em nome de uma ciência, de uma tecnologia jamais reavaliada.
Existe demasiada confiança na aparelhagem especializada que não é capaz de avaliar e de tomar decisões.

O primeiro aconchego do bebê com a mãe, o primeiro olhar para os pais, o tempo de espera para o primeiro contato e conhecimento mútuo não entra em cogitação. A pressa é a "senhora absoluta" da situação. É preciso mandar a mãe para a cama, limpar a sala e os instrumentos, terminar tudo rapidamente.

Os efeitos perversos da tecnologia são numerosos. Uma intervenção não justificada desencadeia freqüentemente muitas outras, cada uma com seus efeitos negativos e posteriormente perigosos para a saúde da mãe e do seu bebê.

No hospital, preciosas informações são perdidas, entre as observações feitas pela enfermeira do dia, a da noite, o estudante de medicina, o residente e o médico que quase sempre chega no último momento. A fragmentação do trabalho, os inevitáveis problemas de hierarquia, as relações de trabalho entre os membros da equipe de saúde de variadas personalidades atrapalham a comunicação sempre tão necessária para que se chegue a um diagnóstico efetivo do que está ocorrendo com a parturiente.

De fato o hospital é uma invenção do século XX e já não é sem tempo que se faça uma avaliação do seu desempenho individual e coletivo.

Quanto mais partos eu assisto, em casa ou no hospital, mais eu me convenço que o lugar mais natural para dar à luz, quando se está sadio, é no seu próprio lar.



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