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O PARTO NORMAL
Em um mundo
que se diz progressista, é difícil aceitar e dar um significado
à fadiga humana. Inscrevê-la em um projeto que seja ao mesmo
tempo individual e universal. Não se pretende de maneira alguma
exaltar o sofrimento nem o contrapor à alegria, mas apenas reconhecer
sua existência, como possível elemento do evento.
Na controvérsia existente entre, de um lado, a humanização
do parto, parto sem violência e de outra, "parto sem risco" realizado
nos hospitais, os médicos não são árbitros
neutros. Nesse debate, os médicos são participantes emotivos
do grupo que coloca a ciência como defensora do poder médico
ameaçado do exterior.
Os profissionais
que defendem o parto "sem violência" têm apenas a própria
experiência como argumento. Pensando-se bem, raciocinando, podemos
achar que as inovações técnicas não tenham
melhorado significativamente o prognóstico da mãe e do recém-nascido.
Pode também ser que uma dose de risco seja inerente a toda ação
humana e o que importa é assumir o risco que nós escolhemos
com conhecimento de causa.
É
possível que, como nossa sociedade oculta a morte, pode também
(pela técnica) camuflar o ato do nascimento, exorcizando a angústia
e o medo.
E se nós reprovamos as mulheres que desejam um parto normal dizendo
que elas dão as costas ao progresso, podemos sempre nos perguntar
de qual progresso estamos falando e se a medicalização, a
tecnização e a rotina crescentes na assistência ao
parto realmente melhoraram a vida das mulheres que dão à
luz e a de seus filhos.
O parto é um processo fisiológico normal que, na maioria
dos casos, deveria se desenvolver sem intervenções. Estas
devem ser realizadas como último recurso e se justificam quando
absolutamente necessárias e NUNCA como rotina de procedimento.
A DOR
DO PARTO
Uma realidade
que não pode ser negada.
Vivemos em uma sociedade que usa todos os artifícios possíveis
para fugir da dor. Ela está presente no quotidiano de milhões
de pessoas, que respondem coletivamente pelo uso ilimitado de toneladas
de analgésicos, uma solução estritamente química
e eficaz somente a curto prazo.
A mulher,
ao dar à luz, traz sua bagagem, suas experiências que tiveram
início quando criança nas primeiras quedas e machucados,
nas doenças próprias da infância, nas frustrações
e desejos não satisfeitos. Passou por momentos de dor física
e psíquica.
Quando adulta e grávida, ela deve se preparar de maneira realista
para o imenso desafio que representa o trabalho de parto. Embora possa
parecer louvável do ponto de vista humano, não devemos amenizar
o fato com palavras substitutas como “contração” ou “desconforto”.
A verdade deve ser dita para evitar que ela se descontrole no momento da
dor, o que iria prejudicá-la ainda mais.
A dor aparece
sempre num contexto que influencia a maneira pela qual ela nos atinge.
Entre os fatores que aumentam a nossa percepção da dor, estão
o medo, o estresse mental, a tensão, a fadiga, o frio, a fome, a
solidão, o desamparo social e afetivo, a ignorância do que
está acontecendo, um meio estranho ao que estamos habituados, e
o início das contrações com dor.
Entre os fatores que reduzem nossa percepção da dor, temos
o relaxamento, a confiança, uma informação correta,
o contato contínuo com pessoas familiares e amigas, o fato de estar
ativa, descansada e bem alimentada num meio familiar confortável
e o fato de permanecer no instante presente e de viver as contrações
uma a uma.
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